quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
um dia à noite
Arnauld Flinn, um pobre diabo, 27 anos, sem família, sem amigos, corretor ortográfico do jornalzinho do sindicato dos sapateiros da microrregião de Tabathalândia, sente que sua existência não tem nenhum, absolutamente nenhum, sentido. Num quarto, exíguo, sufocante, cortinas rasgadas, quadro do Megadeth cobrindo uma mancha amarelo-alaranjada em formato de mega-ameba gigante azulada morta e crucificada, agora podre, colada na parede, naquela pensão de quinta, ao lado do terminal urbano central, Flinn troca de canais como se fosse um exercício mântrico, o controle remoto não para, canal após canal, numa roleta russa televisiva esperando, quem sabe, uma imagem fatal que termine com aquela agonia; está convencido de que a programação dos conteúdos foram, de certo modo, arranjados por seres malignos para amplificar o tédio. Meio à contragosto, resolve, apesar da chuva fina lá fora, sair, caminhar sem rumo, talvez aquela ânsia de por um fim ao sofrimento, com uma corda, diminua. Veste a jaqueta de couro puída, o boné pendurado atrás da porta sobre um poster da seleção de 70, fecha o enorme cadeado, desce a escada rangente, quando se depara com a calçada, é tomado de um súbito pavor, mas dá de ombros e segue adiante, sabe que não tem direito a nenhum luxo. Insone, passos trôpegos, sem destino, pela madrugada escura, em ruelas com cheiro de comida estragada, névoas noturnas misturadas a fumos de exaustores, de esgotos, espiam olhares solitários como de vampiros entre as janelas embaçadas, edifícios rudes, antigos, lado a lado disputam o qual é mais pichado, mais sujo, mais abjeto. Flinn, carrega sua alma como quem arrasta um fardo de chumbo, no peito toda a densidade do vazio, da ausência - não, não há nada no mundo que possa trazer-lhe alívio - a cada minuto, hora, dias, que escorrem como o chorume dos cemitérios, percebe que a desolação só aumenta. Atravessa a rua deserta, tentando desviar dos punks nojentos que fazem ponto ali em frente ao Tattoo Blood - uma espelunca decadente, que viveu seu auge alguns anos atrás, quando foi um ponto badalado “cult” de venda de haxixe, produtos místicos, bonecos de jogadores de futebol para colecionadores entre outras novidades raras, frequentado por estudantes da faculdade de letras, agora um muquifo onde servem vodka barata, ovos coloridos e, se estiver com azar, uma tatuagem torta do Sid Vicious no braço - de nada adiantou, neste lado da rua a coisa é ainda pior, observou Flinn, ladrões, prostitutas/travestis/gigolôs, bêbados, risadas lancinantes, cicatrizes, ratazanas, crack queimando, vômito, uma criança chorando sozinha no escuro, entrecruzando-se, num carnaval lúgubre, murmurante, como nunca Dante imaginara. Parou ao lado do velho teatro, transformado em agência coletora de tributos celestiais - Iúrde - pôs-se a ler um dos cartazes sobre um evento trash nas redondezas; sua dor de cabeça ainda não tinha passado, 40 dias + 40 noites, daquele latejamento, estava acostumando, tornara-se uma bisonha companhia: “inferno maldito”, exclamou, cuspiu e continuou sua caminhada. Subtraído do status quo predominante, sentia falta, ao mesmo tempo nojo, da normalidade mundana, sua dor não diminuiria caso se tornasse ordinário cidadão: melhor continuar como um zumbi. Prefere viver assim, morrendo aos poucos, perdendo lentamente o paladar, as lembranças, a sensibilidade, sabe que, pelo menos, ninguém verterá uma única lágrima por ele. Alguns quarteirões adiante, naquela alameda fétida, a garoa se transformou em chuva, Flinn apressou o passo e abrigou-se sob a marquise do Hotel Bourbon, com suas vitrines escuras, portas com detalhes art-noveau, um gárgula fitava-o do alto de um dos prédios, - sempre teve receio dessas estátuas no alto dos edifícios, também nas praças, bustos, monumentos; lhe davam a impressão de gestarem estranhas criaturas que, um dia, eclodiriam daquela latência pétrea, saltariam demônios de profundos submundos para devorar-lhe a carne - encostou-se na parede molhada, pegou o último cigarro de uma carteira amassada, esquecida há muito num dos bolsos da jaqueta e, enquanto tragava lentamente, pôs-se a refletir sobre sua temerária existência. Lembrou-se da infância, sem os pais; daquela tia bizarra e desinteressada de quem recebeu as piores referências da vida, tudo sob uma ótica erótica mórbida, torpe; depois dos poucos amigos que se foram tão rápido quanto vieram, agora aqui, neste mundo nulo, triste, cinza. Jogou a bituca numa poça d´água; sabor amargo de tabaco - gosto de veneno - garganta ardendo; a chuva diminuindo, os poucos automóveis que transitavam àquela hora pareciam casulos intransponíveis protegendo vidas e sonhos com os quais jamais sonhara; desceu alguns metros rumo a galeria onde tinha um sebo no qual, certa vez, comprara um LP do Raul, ao lembrar da música - canto para a minha morte - esboçou um pseudo-sorriso quando, simultaneamente, sentiu uma fortíssima fisgada na altura do peito, dor forte, fulminante, suas pernas fraquejarem, caiu de joelhos, diante da velha galeria, surpreso, confuso, seu tronco tomba como um saco batatas sobre alguns restos de lixo, o corpo estirado no chão, ao lado de uma caçamba da prefeitura, o semi-sorriso manteve-se em seus lábios e a última coisa que viu, na vida, foi uma luz se apagando, tal como num tubo de imagem de uma tv à válvulas. O ônibus Jardim Celeste/Centro passa, próximo ao meio fio, espalha água e óleo diesel sobre seu corpo. Um rato sai do esgoto, vem lamber a gota de sangue que escorre, lânguida, de seu nariz.
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