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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Saudade

no meio da noite
um susto paralisante
num canto da pia
uma barata gigante
gigante mesmo!
um transformer orgânico
uma capivara
gorda e satisfeita
translúcida, 

oleosa,
me encara,
lambendo,
chupando,
roendo,
gulosa,
minha escova de dentes.

e eu, 
só de cueca,
naquele duelo,
no meio da casa,
zilhões 

de 
ecos 
nos 
céus
repletos 

de 
sóis
da clássica questão:


você é um homem ou um rato?

taquicardia,
adrenalina,
sudorese,
um rato?? 
[ser ou não ser]
como bruce lee,
reagi,
alcancei o inseticida,
meio tubo,
num segundo,
veneno desgraçado,
piretróide grã-bretão,
ardia,
queimava,
debatia-se,
estrebuchava;
quase morta,
meio torta,
pedia clemência,
alegava inocência,
tarde demais.

orgulho e heroísmo,
um grito de tarzan rasgando a madrugada.

silêncio

no mundo
...o corpo moribundo,
ejetava, lentamente,
atrás do vaso sanitário,
um ovo reluzente,
resistência,
esperança,
a vida diante da morte,
através dos séculos e para sempre.

assassino. assassino. culpado!


remorso
culpa,
vergonha,
saudade,
arrependimento,
“não matarás”
bíblia pegando fogo
pedregulho,
pedra,
paralelepípedo,
tá, tá, tá,
confesso,
perdão,
não,
sentença:
cuidar do ovo e das baratinhas
lutar e defender
todas as baratas da face da terra.




quinta-feira, 8 de março de 2012

internet life


jornal virtual, de papel


reciclabilidade obsoleta


notícia fresca é notícia velha


revista: leio a página do meio pela metade


livros, que maravilha, lendo 15


esqueça tudo isso, digite www.qualquercoisamesmo.com.br


notas e notículas efervescendo nas agências instantâneas de notícias


"Pessoas morrendo ao vivo, assista on-line!"


"Olho de homem-bomba comido por rato kirkutiano"


É a excelência, a abundância, o êxtase!!!


https://www11.cxxml.com.br/appnoktyer/portal/yzk/univers/tunc/cor/CursosOnLine.jsp/AprendaSozinhoAExpulsarEspíritoDePorco,  naum tenho nada prá fazer mesmo...


tem mais as discussões dos grupos, as comunidades, twitter, facebook, nos fóruns, nos canais, nos blogs, nos messengers, lá no site, no e-mail, no celular e no microondas


3000 grupos cada um com 3000 associados, entrecruzados rediscutindo a relação do onírico-lisérgico-político com o mágico-realístico-bombástico.


tudo dito, jamais imaginado


hiperlink do hiperlink da wikipédia sobre hipertexto


'_***§¯° Lord Dick °¯§***_ acabou de se conectar...'


esporte, cultura, arte, cinema, sexo, moda, anti-vírus, epidemia, pandemônio, sacrilégio


enc-enc-re-re-reUUU de suj-suj-sujeito des-des-desconhecido


a última piada, agora, neste instante, acabou de entrar na caixa de entrada


"Prestação de contas não-contabilizada do mandato do pau-mandado do deputado ŞŦťũůÜßýò¶§"


tua foto bêbado, sorrindo, no colo daquela puta, no display do celular da tua espôsa, noiva, namorada, prima, irmã, tia, mãe, outdoor


o que você pensa os outros estão lendo


foto feita de cabeça


evangelho segundo mateus, lido hoje no grupo de reflexão lá da rua, sério!


muito linda essa mensagem, veja e repasse (attached file paz.ppt):
“- torres gêmeas desmoronando,
- mensagem, de texto, espiritual,
- foto de flor de lótus em foco,
- texto de mensagem espiritual,
- tailandes pegando fogo,
- música doce e sentimental ao fundo,
- imagem de jesus chorando colada nas nuvens do por-do-sol,
- mande para seus amigos, imediantamente, senão vai acontecer uma desgraça.
- this is the end my friend.”


foto de mulher pelada, por dentro


help de blog, blearghhh


vídeo sexo caseiro produzido em estúdio


pânico, bunda, leiaute, escândalo, sacrifício


♥ elaine ♥ acabou de se conectar...'


imagens, imagens, mais imagens pelo amor de deus!




a vida é assim: ora download ora upload...


google busca: "Stairway to heaven by Tonico and Tinoco, mp3"
resultados 1 - 10 de aproximadamente 9.720.000.000 para Stairway to heaven by Tonico and Tinoco, mp3 (0,06 segundos)


"aumente seu pênis".


"estreite sua vagina".

PROTOCOLO 137162852


controle o que o seu filho não vê ;o)


encontrei buda, no face...


...graças, estou salvo...


curtiu?





quinta-feira, 1 de março de 2012

perfil


“pois o empregador estará buscando, nas redes sociais, traços de quem você realmente é”, então:


- anarcoguitarrista

- disritmo-in-disciplinado

- iconoclastadesconstrutivista

- empinador de caloi

- curtidor de salto mortal

- psicógrafo de inca venusiano



- digito, deleto, digito, deleto, digito digito, deleto deleto



- jogo tarô com baralho pornô

- habilidade de entrar em uma música e sair em outra

‎- consumidor de fumaça

- benzedor de formigueiro



- bebo, nem sempre vomito



- adorador de nuvem

- especialista em Pink Floyd

- desenhista de alucinação

- tupinambá parnasianista

‎- experiência com álbuns de figurinhas

- vejo fantasmas

- acredito em duendes

- excelente desconcentração

- medo de vulcão

- zazen com metallica



- cantor, porém gáaà-gáa-gà-gago



- opositor de louva-a-deus

- sempre vestindo a camisa da empresa (SEP - sociedade esportiva palmeiras)

- visão ócio-niilista

- revolucionário sócio-aquático

- atabaquista observando sabiá



- coço meu saco, mas assim, não tenho orgasmo



- praticante de não-pensamento

- herói preferido: nacional kid

- vocação: telepata

- cargo: desenhista de diabos

- função intuitiva



- não corto as unhas, deixo-as crescer

- cabelo idem



- mais antídoto do que lógico

- nem tudo o que não foi dito, foi imaginado.



caro empregador,

que me observa neste mundo virtual,

que me olha vendo lucro,

vou te dizer:

na verdade sou um chucro,

tudo posso desmentir,

simplesmente desdizer;

não disse o indizível,

não mostrei o invisível,

meu currículo tá vazio :-|;

de nada estou cansado,

de tudo estou com sonho,

meu cavalo está voando...


pretensão salarial: “compartilhar”, “retuitar”, “share”, "curtir", etc.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

um dia à noite

Arnauld Flinn, um pobre diabo, 27 anos, sem família, sem amigos, corretor ortográfico do jornalzinho do sindicato dos sapateiros da microrregião de Tabathalândia, sente que sua existência não tem nenhum, absolutamente nenhum, sentido. Num quarto, exíguo, sufocante, cortinas rasgadas, quadro do Megadeth cobrindo uma mancha amarelo-alaranjada em formato de mega-ameba gigante azulada morta e crucificada, agora podre, colada na parede, naquela pensão de quinta, ao lado do terminal urbano central, Flinn troca de canais como se fosse um exercício mântrico, o controle remoto não para, canal após canal, numa roleta russa televisiva esperando, quem sabe, uma imagem fatal que termine com aquela agonia; está convencido de que a programação dos conteúdos foram, de certo modo, arranjados por seres malignos para amplificar o tédio. Meio à contragosto, resolve, apesar da chuva fina lá fora, sair, caminhar sem rumo, talvez aquela ânsia de por um fim ao sofrimento, com uma corda, diminua. Veste a jaqueta de couro puída, o boné pendurado atrás da porta sobre um poster da seleção de 70, fecha o enorme cadeado, desce a escada rangente, quando se depara com a calçada, é tomado de um súbito pavor, mas dá de ombros e segue adiante, sabe que não tem direito a nenhum luxo. Insone, passos trôpegos, sem destino, pela madrugada escura, em ruelas com cheiro de comida estragada, névoas noturnas misturadas a fumos de exaustores, de esgotos, espiam olhares solitários como de vampiros entre as janelas embaçadas, edifícios rudes, antigos, lado a lado disputam o qual é mais pichado, mais sujo, mais abjeto. Flinn, carrega sua alma como quem arrasta um fardo de chumbo, no peito toda a densidade do vazio, da ausência - não, não há nada no mundo que possa trazer-lhe alívio - a cada minuto, hora, dias, que escorrem como o chorume dos cemitérios, percebe que a desolação só aumenta. Atravessa a rua deserta, tentando desviar dos punks nojentos que fazem ponto ali em frente ao Tattoo Blood - uma espelunca decadente, que viveu seu auge alguns anos atrás, quando foi um ponto badalado “cult” de venda de haxixe, produtos místicos, bonecos de jogadores de futebol para colecionadores entre outras novidades raras, frequentado por estudantes da faculdade de letras, agora um muquifo onde servem vodka barata, ovos coloridos e, se estiver  com azar, uma tatuagem torta do Sid Vicious no braço - de nada adiantou, neste lado da rua a coisa é ainda pior, observou Flinn, ladrões, prostitutas/travestis/gigolôs, bêbados, risadas lancinantes, cicatrizes, ratazanas, crack queimando, vômito, uma criança chorando sozinha no escuro, entrecruzando-se, num carnaval lúgubre, murmurante, como nunca Dante imaginara. Parou ao lado do velho teatro, transformado em agência coletora de tributos celestiais - Iúrde -  pôs-se a ler um dos cartazes sobre um evento trash nas redondezas; sua dor de cabeça ainda não tinha passado, 40 dias + 40 noites, daquele latejamento, estava acostumando, tornara-se uma bisonha companhia: “inferno maldito”, exclamou, cuspiu e continuou sua caminhada. Subtraído do status quo predominante, sentia falta, ao mesmo tempo nojo, da normalidade mundana, sua dor não diminuiria caso se tornasse ordinário cidadão: melhor continuar como um zumbi. Prefere viver assim, morrendo aos poucos, perdendo lentamente o paladar, as lembranças, a sensibilidade, sabe que, pelo menos, ninguém verterá uma única lágrima por ele. Alguns quarteirões adiante, naquela alameda fétida, a garoa se transformou em chuva, Flinn apressou o passo e abrigou-se sob a marquise do Hotel Bourbon, com suas vitrines escuras, portas com detalhes art-noveau, um gárgula fitava-o do alto de um dos prédios, - sempre teve receio dessas estátuas no alto dos edifícios, também nas praças, bustos, monumentos; lhe davam a impressão de gestarem estranhas criaturas que, um dia, eclodiriam daquela latência pétrea, saltariam demônios de profundos submundos para devorar-lhe a carne - encostou-se na parede molhada, pegou o último cigarro de uma carteira amassada, esquecida há muito num dos bolsos da jaqueta e, enquanto tragava lentamente, pôs-se a refletir sobre sua temerária existência. Lembrou-se da infância, sem os pais; daquela tia bizarra e desinteressada de quem recebeu as piores referências da vida, tudo sob uma ótica erótica mórbida, torpe; depois dos poucos amigos que se foram tão rápido quanto vieram, agora aqui, neste mundo nulo, triste, cinza. Jogou a bituca numa poça d´água; sabor amargo de tabaco - gosto de veneno - garganta ardendo; a chuva diminuindo, os poucos automóveis que transitavam àquela hora pareciam casulos intransponíveis protegendo vidas e sonhos com os quais jamais sonhara; desceu alguns metros rumo a galeria onde tinha um sebo no qual, certa vez, comprara um LP do Raul, ao lembrar da música - canto para a minha morte - esboçou um pseudo-sorriso quando, simultaneamente, sentiu uma fortíssima fisgada na altura do peito, dor forte, fulminante, suas pernas fraquejarem, caiu de joelhos, diante da velha galeria, surpreso, confuso, seu tronco tomba como um saco batatas sobre alguns restos de lixo, o corpo estirado no chão, ao lado de uma caçamba da prefeitura, o semi-sorriso manteve-se em seus lábios e a última coisa que viu, na vida, foi uma luz se apagando, tal como num tubo de imagem de uma tv à válvulas. O ônibus Jardim Celeste/Centro passa, próximo ao meio fio, espalha água e óleo diesel sobre seu corpo. Um rato sai do esgoto, vem lamber a gota de sangue que escorre, lânguida, de seu nariz.